O digital das micro e pequenas empresas

Nos últimos tempos tenho dedicado muito do meu tempo a fazer consultadoria a micro e pequenas empresas na criação ou revisão da sua presença online. Este tipo de empresas constitui o núcleo duro da economia portuguesa actual. Segundo os últimos dados do site PORDATA (um parêntesis para elogiar a Fundação Francisco Manuel dos Santos pela criação e manutenção desta fantástica ferramenta):

Segmentação do tecido empresarial em Portugal. Fonte: pordata.pt

Segmentação do tecido empresarial em Portugal. Fonte: pordata.pt

Apesar de naturalmente as grandes empresas serem geradoras do maior volume de negócio entre os quatro tipos definidos estatisticamente, se medirmos o seu impacto na economia pelo número de trabalhadores ao serviço, as micro empresas são responsáveis por quase metade do emprego em Portugal. Dependendo muitas destas micro empresas dos fornecimentos às médias e grandes empresas, não quero desvalorizar estas últimas em relação às primeiras. Mas que este “ecossistema” económico se baseia essencialmente nas micro e pequenas empresas, parecem não restar dúvidas.

A taxa de mortalidade das micro empresas é elevadíssima. Também o é a taxa de natalidade. E se este é um problema para a economia portuguesa, também é verdade que esta é a dura realidade e não será alterada senão em décadas futuras, se o for de todo. Este cenário leva-me a identificar e tratar este mercado como um dos mais interessantes enquanto consultor de TI/SI.

 

Dificuldades e oportunidades

Existem dois problemas óbvios na abordagem a este segmento empresarial: 1 – a dimensão das empresas não lhes permite grandes investimentos de capital; 2 – a literacia tecnológica destes empresários é extremamente baixa.

Estes dois aspectos seriam suficientes para um profissional da área TI/SI procurar “outras paragens”. Mas poderemos considerar outras vertentes e trabalhar a partir daí. Uma delas, que tenho explorado e cada vez o farei mais é o facto de as TI e muito especificamente a Internet ter vindo a disponibilizar a toda a economia, ferramentas de marketing, gestão e operação que estavam no passado como que reservadas às médias e grandes empresas, pelo custo envolvido.

Um exemplo: nas décadas de 80 e 90 se uma empresa considerasse que produzir publicidade aos seus produtos e serviços em formato vídeo, não teria forma de os distribuir, de os fazer chegar aos potenciais clientes, a não ser que desembolsasse uns milhares de euros em tempo de antena das estações de televisão. Hoje pode fazê-lo a partir do seu site, complementado pelo Youtube e Vimeo, por uma fracção do custo. E se for bem feito (este é o Factor Crítico de Sucesso – FCS), a audiência será idêntica ou provavelmente maior e, ainda mais importante, adequada à mensagem.

Outro exemplo: uma loja online baseada em Portugal está só à distância de chegar a milhões de consumidores que um pequeno investimento em SEO (Search Engine Optimization) requer. Mais uma vez, “qual” o investimento e como é feito, constitui o FCS. Antes do advento da Internet, esta realidade pura e simplesmente não existia.

Estes dois exemplos, escolhidos entre muitos, são representativos de dois paradigmas novos a considerar: a relação entre investimento versus retorno nas TI/SI é (ou melhor, pode ser) muito menor do que há décadas atrás; e a dimensão do mercado, o alcance das nossas marcas, produtos e serviços através desses pequenos investimentos é neste momento verdadeiramente global. Pense-se só no que implicaria no fim do século XX uma pequena empresa conseguir vender pontual ou recorrentemente, por exemplo, nos Estados Unidos da América. É um exercício que terá de ter em conta variados aspectos, mas uma das conclusão que poderão chegar de imediato é a de que actualmente isso é possível para um número elevado de empresas às quais definitivamente esse acesso estava vedado anteriormente.

Qualquer jornada começa por um passo

Digamos que de certa forma, o acesso ao mercado global foi democratizado, ou se preferirem, foi tornado mais independente do volume de investimento em marketing. Não totalmente, mas para efeitos práticos, foi isto que aconteceu.

Este contexto de “mercantilização” não garante por si só o sucesso do negócio através do canal online. São muitos e de variada importância os “novos” factores de sucesso. E para dificultar ainda mais as decisões acertadas, esses factores de sucesso carecem exactamente de uma literacia tecnológica já referida que, do meu ponto de vista, não existe genericamente nos gestores das micro empresas. O que poderia ser um factor de crescimento e até sobrevivência destas empresas é assim desperdiçado de uma forma que eu diria ser quase “dolorosa” dado o potencial para o negócio e o pequeno investimento necessário.

Desde há uns anos atrás, que parte do meu dia-a-dia profissional e até da minha estratégia de negócio passa por tentar formar os empresários nas questões relacionadas com a utilização das tecnologias, adaptando toda uma série de sistemas existentes às necessidades, mas sobretudo à estratégia de crescimento das micro empresas. Essa formação é realizada em cada análise que faço para uma proposta comercial, em workshops e palestras de eventos empresariais ou organizados por associações empresariais e em serviços de consultadoria per si.

Apesar de ser uma tarefa hercúlea, tem dado os seus frutos, e não obstante estar recheada de insucessos, existem casos muito interessantes de empresas que cresceram ou que ganharam sustentabilidade a prazo ou até que sobreviveram após um boa abordagem à presença online, e que de outra forma teriam o mesmo destino que milhares de outras: a insolvência, a falência, o desaparecimento do tecido empresarial.

Brevemente publicarei uma séria de artigos sobre as potencialidades do negócio online, as tecnologias a ser usadas, a correcta abordagem da construção de sites, lojas online, plataformas de gestão de relação com clientes, marketing para o canal digital e outros aspectos relacionados. Esta série de artigos é baseada na minha experiência pessoal e na de outros profissionais da área TI/SI com os quais tenho vindo a trabalhar ao longo dos anos. Baseia-se também em casos específicos de empresas e empresários com quem trabalhei no sentido de criar as bases para a adopção das TI/SI e incorporação do seu valor nas suas empresas. Casos de insucesso abundam, mas, tal como as organizações militares, as grandes corporações e estruturas estatais, a abordagem sistemática através da metodologia de “Lessons Learned” pode contribuir para o meu objectivo final: promover o crescimento e a sustentabilidade das micro empresas através da incorporação do valor das TI/SI no negócio.

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