A Batalha de Lys e um soldado que vale Milhões

Por vezes o mundo alinha duas ou três situações distintas (ou assim nos parece) e cria as condições para uma reflexão mais profunda sobre um qualquer assunto que até ali não nos tinha chamado a atenção.

E eu que não sou nada destes misticismos, vai de me lembrar no passado Domingo, de forma a “assinalar” o último dia de férias escolares de Páscoa dos descendentes, “Vamos ao Porto, ao Museu Militar”. Algo modesto, até humilde, para um país com tamanhos feitos militares ao longo da sua história, o Museu Militar do Porto compensa a falta de espólio com a simpatia e dedicação do seu pessoal aos visitantes.

E qual seria a probabilidade de ficar a conhecer melhor a participação de Portugal na I Grande Guerra, assunto que confesso não ser muito conhecedor, e mais particularmente da história de Aníbal Augusto Milhais, mais conhecido pela alcunha de “Soldado Milhões”, UM DIA ANTES DO 100º ANIVERSÁRIO DA BATALHA DE LYS.

Pois foi isso que aconteceu. Faz hoje 100 anos, um século inteiro, redondo, da data que viria a perpetuar um dos heróis militares Portugueses do Sec. XX.
A história simples, de um acto heróico, despoletado (não é assim sempre?) por uma situação emergente e desesperada, daquelas nas quais os Portugueses se levantam mais alto do que quaisquer outros, tem um enquadramento dramático. De um lado, o grande Império Germânico, do outro, uma coligação que se iria repetir uns anos mais tarde, em 1939, mais país menos país: Império Britânico, com as suas colónias mais a Bélgica, França, Portugal e Estados Unidos.

O Corpo Expedicionário Português, composto por 55.000 homens e comandado pelo Gen. Tamagnini de Abreu e pelo Gen. Gomes da Costa (embora sob coordenação do Primeiro Exército Britânico), foi a resposta possível, de um país pobre e a braços com uma enorme instabilidade política (formado apenas 7 anos após a Implantação da República).

Numa guerra das mais desumanas que o mundo viu, fruto das condições ambientais agrestes do território (neste caso, da Flandres na Bélgica) aliadas ao uso de trincheiras, nas quais a dureza da sobrevivência era só superada pelo horror das armas químicas, usadas pela primeira vez na história, o Corpo Expedicionário Português foi fustigado não só pelos ataques Germânicos, mas também pela própria desmoralização das tropas devido a cansaço extremo.

Nesse cenário, nos primeiros dias de Abril, decide o Comando do Primeiro Exército Britânico substituir as duas divisões do Corpo Expedicionário Português que mantinham a primeira linha de defesa na zona de Lys. Retirada a 1ª Divisão, fica a 2ª Divisão a suportar a linha com o dobro do empenhamento programado, de forma que se considerava temporária, até ser rendida por duas Divisões Britânicas.

Mas é exactamente nesse interregno que os Germânicos lançam um violento ataque. Estávamos a 9 de Abril, há exactamente 100 anos atrás da data que escrevo. Para se ter uma ideia da desproporção de forças, o ataque conta com quase 2000 peças de artilharia germânicas a fazer fogo sobre o sector Português. O CEP responde com… 80 peças. O combate é desproporcional e a derrota da coligação é mais do que certa. A história é “cinzenta” neste ponto: existem estudos que apontam para que a 2ª Divisão entra em debandada desorganizada; outros dizem que é recebida a ordem de retirada e assim esta se cumpre. O que é certo: é impossível 20 000 homens fazer frente a 100 000 e não estamos em Aljubarrota. A 2ª Divisão retira. E aparece o nosso herói, o soldado Milhais.

Operando a sua metralhadora “Lewis”, que apelidava de “Menina”, faz fogo cerrado sobre os atacantes, provocando pesadas baixas ao exército Germânico e cobrindo a retirada dos seus camaradas de Divisão, bem como de soldados Escoceses, parte da rendição a decorrer. Foi tanta a resistência que conseguiu oferecer, que os Germânicos se viram obrigados a tornear a sua posição. Milhais ficou assim isolado atrás das linhas do inimigo, separado da sua Divisão que retirava para junto da linha de apoio Britânica.

Durante três dias conseguiu ludibriar o inimigo, tendo ainda salvado um Major escocês ferido que encontrou perdido. Chegado junto dos seus, e apesar da sua bravura, esta só foi reconhecida após relatos dos seus camaradas Portugueses e Escoceses, uma vez que ele próprio disso não fez alarido.
Meses mais tarde, ainda com a sua “Menina”, de novo cobriu a retirada, desta vez de uma unidade Belga atacada pelas tropas do Império Germânico. O Comandante Belga referenciou o acto nos seus relatórios. Aníbal Augusto Milhais foi agraciado com a Ordem de Torre e Espada e com a ordem francesa da Legion of Honour, condecoração atribuída ao contrário da tradição, em pleno teatro de operações.

E como sempre, o Estado Português, tão ocupado com a sobrevivência dos políticos (era assim noutras eras e continua ser), falhou em reconhecer os actos de heroísmo, coragem e entrega de homens simples, todos eles representados pelo Soldado raso Milhais. Não um Tenente, um Capitão ou General mas sim um soldado raso, que sofreu numa guerra brutal em representação de um ideal, que por justo que fosse, de difícil compreensão era também, pelos 55 000 homens iniciais e todos os outros que os renderam e até por todos os outros que lhes sucederam nos diversos conflitos em que Portugal teve intervenção.

Só dez anos após Lys, Milhais recebeu a justa compensação do Estado, depois de muita pressão da opinião pública da época. Aníbal Augusto Milhais morreu em 1970, na sua terra Natal, Valongo de Milhais.

 

Na mesma altura em que um militar Português foi ferido numa missão na República Centro Africana, em missão da ONU (MINUSCA) e temos tropas empenhadas no Kosovo, Roménia, Iraque, Afeganistão, Mali, Somália e Colômbia, comemora-se hoje o Centenário da Batalha de (La) Lys.

É hora de recordar os heróis, mas também de assumir as responsabilidades de segurança do país e do mundo, em nome da democracia, da liberdade e dos Direitos Humanos, que por todo o lado e a nível Global se encontram em risco. Lembremos o “Soldado Milhões” (alcunha recebida por Aníbal Augusto Milhais, eventualmente atribuída pelo Major Ferreira do Amaral, no seu louvor datado de Julho de 1918, “…as sua acções valeram por um milhão de homens…”), enquanto representante dos milhares de soldados Portugueses ao longo de 875 anos de História de Portugal.

The Battles of th Lys
By | April 9th, 2018|Política e Cidadania|0 Comments

Leave A Comment