De pequenino é que se torce… o código

Tudo aconteceu num jantar, em casa, altura do dia para partilhar as experiências de cada um durante a jornada.

Beatriz – Qualquer dia vou trabalhar contigo.

Eu – Ai é? Mas vais trabalhar nos computadores? Então não querias ser médica, actriz e cantora?

Beatriz – Isso também. Mas agora já sei programar, por isso…

Pois. Pela minha experiência baseada no currículo do mais velho (13 anos), na disciplina de TIC, pensei que esta, mais nova (9 anos) provavelmente estava também a aprender Power Point, Word e Publisher (!) usando nos trabalhos produzidos todas as variantes e tipos de letra, cores e animações disponíveis. Porque foi isso que o João aprendeu em “TIC” durante 4 anos.

Eu – Mas, ó filha, sabes que isso de programação não é só fazeres os “Power Points” (que eu já tinha reparado que ela sabia fazer). O que vocês estão a aprender é a utilizar o computador. Programar é outra coisa. É muito mais compli…

Beatriz – Mas Pai [adora contra-argumentar, começando sempre por “mas Pai”], eu sei disso. Estou agora a acabar o meu primeiro jogo. Só não consigo que a princesa grite quando a bola lhe acerta! Precisava que me ajudasses.

Eu – ???

Princesa que grita? Bola? Gritar quando a bola acerta? Mas que raio…

Eu – Mas afinal estás a falar de quê?

Beatriz – Dos meus programas em Scratch.

Eu – Ah?

Beatriz – Scratch. É para programar.

Ops. A miúda está a aprender a programar? E o discurso saía-lhe assim tão natural, que estava a falar de objectos, eventos, triggers sem usar a terminologia. Nesta altura já levava aí umas três ou quatro semanas da sua formação em programação. Ofereci-me de imediato para a ajudar a resolver o “bug”, porque até precisava de descobrir o que era aquilo do Scratch. Fim do jantar e lá fui eu com a minha pequena professora, para a minha aula de Scratch e ver se depois conseguia pôr a princesa a gritar (!). URL  no browser e lá fomos nós…

SCRATCH it

Aspecto da interface de Scratch

Aspecto da interface de Scratch https://llk.media.mit.edu/projects/783/

O (ou “a”) SCRATCH começou por ser uma linguagem de programação, desenvolvida pelo Lifelong Kindergarten Group, pertencente ao prestigiado MIT Media Lab, com o intuito de apresentar a crianças dos 6 aos 16 anos os rudimentos das linguagens de programação. Com a adopção cada vez maior por parte de professores, escolas e pais, tornou-se muito rapidamente também a designação para uma comunidade online à volta da plataforma.

A ideia dos criadores passou por criar um ambiente de desenvolvimento atractivo para estas idades, mas onde os utilizadores / programadores pudessem exercitar o pensamento criativo, o raciocínio sistemático, a lógica, algoritmia e matemática. A forma como o implementaram é visualmente apelativa, intuitiva, de fácil utilização, mas ao mesmo tempo, permite o contacto com as estruturas lógicas presentes em qualquer algoritmo.

O SCRATCH tem servido de base para muitos “Clubes de Programação” por esse mundo fora e foi assim uma agradável surpresas a minha filha estar a usar a plataforma e a aprender programação.

Existe actualmente, sem dúvida, um esforço do Ministério da Educação para a introdução à informática logo no primeiro ciclo.  Tanto quanto me é dado a entender, o ensino das TIC (nome genérico que engloba quase tudo o que se ensina do 1º ao 12º anos de escolaridade) limita-se à chamada “óptica do utilizador”. Aulas e trabalhos práticos em casa são centrados na produção de conteúdos com softwares de produtividade (!), vulgo Office (e geralmente Microsoft Office), com uma ou duas variações entre o Prezi, o OpenOffice e outros. Esta limitação, esta abordagem “pela rama” deriva dos obstáculos do costume: falta de planeamento a médio / longo prazo, a falta de conhecimento dos estrategas da educação sobre o ensino das TI, a falta de formação adequada dos professores e a já “usual” falta de orçamento, entre outros factores.

Mesmo nesta abordagem, privilegia-se a aprendizagem nas aplicações Word e Power Point (ou equivalentes) e menos no Excel e Access. Dentro do que seria possível com estas suites, o Excel e Access poderiam dar noções básicas do potencial do cálculo imediato e recorrente, na análise de problemas complexos através do trabalho nas suas componentes mais simples (Excel) e ainda as noções primárias de bases de dados, potencial de selecção avançada e normalização de estruturas de dados (Access). Mas nem isso…

E pouco se faz na integração da informática como instrumento para o restante estudo (para além dos textos serem feitos agora no processador de texto e as apresentações em Power Point). O potencial do Excel para o ensino da Física e Química, por exemplo, é ignorado.

Do lado de dentro da indústria das TI

Existe também uma “indústria” de TI pouco dada a apoiar e até a utilizar a programação “fundamental”. Culpa das mais recentes plataformas de desenvolvimento de aplicações, muitas vezes ouço dizer, com mais ou menos seriedade, que “não vale a pena formar programadores, que agora as aplicações como que surgem quase auto programadas, que os robots vão substituir os programadores…”.

Este paradigma é tão verdade quanto a rádio ter sido aniquilada pela televisão, os cinemas pelos leitores de vídeo, a televisão pela internet, os correios pelo e-mail e até os taxistas pela Über. Tudo vai mudando com a descoberta pela Ciência e a utilização pela Engenharia de novas tecnologias, novas ferramentas e novos produtos, é certo. Mas estamos perante adaptações dos fundamentos. Não extinções!

Olhando para trás, e até considerando o ritmo alucinante do Século XX nesta matéria, o que vemos é adaptação do ser humano e daquilo que produz em termos de conhecimento e trabalho. Os fundamentos científicos, esses estão presentes ao longo da história. Note-se que continuamos a usar os conceitos matemáticos de Pitágoras, Aristóteles e Euclides. Claro que o estudo da matemática evoluiu muito ao longo dos séculos e ainda mais no século passado. Mas características como o rigor e a linguagem da matemática mantiveram-se como base para evoluções que nos trouxeram até hoje.

Na programação e na informática em geral, isto também é verdade. E a aculturação que fazemos das crianças em direcção à informática é feita nesta base da “informática na óptica do utilizador”. Quando muito, vá lá, de um “super-utilizador” (embora o termo “super” seja manifestamente um exagero). Essa estratégia (ou falta da outra) induz toda a sociedade no erro gigantesco de sentir, erradamente, que estamos a preparar a geração seguinte para este novo mundo de automação, virtualização e capacidade de cálculo e comunicação como nunca a humanidade viu. É uma sensação de segurança falsa, de deficiente preparação e fraca utilidade.

(Parentisis para referir, um pouco à margem deste tema, que ao nível do ensino superior, o cenário é diferente, pelo menos nos cursos relacionados com Tecnologias de Informação. No entanto, também aqui tenho visto recém-licenciados com a propensão para terminar no último trabalho prático do curso o seu uso de uma qualquer linguagem de programação. Pode parecer incrível, mas há recém-licenciados em Engenharia e Ciências de Computação que não sabem passar do mero exercício prático académico para a aplicação do conhecimento no mundo real. Tema para outro artigo…)

De qualquer modo, o problema não é exclusivo do nosso país. E, como o costume, a diferença está no facto de noutras geografias, ele está a ser endereçado, por vezes ao mais alto nível, outras vezes através da mais simples acção que poderemos encetar. Dois exemplos:

Há uns tempos atrás, num comentário a uma publicação de Mark Zuckerberg no Facebook, uma senhora (americana) dizia qualquer coisa como “Parabéns pelos seus sucessos [em ligar o mundo]… por isso digo à minha filha que namore com o nerd da turma. São estes que no futuro vão ter sucesso…” [a citação é de memória]. A resposta de Zuckerberg não podia ser melhor: “Era melhor que lhe dissesse para ela SER o nerd da turma”.

Uma resposta que, apesar de abordar numa primeira leitura uma questão mais sexista e de igualdade de género, encerra em si também a chamada de atenção para os “nerds” serem os mais preparados para viver estes novos tempos. São os nerds que estão melhor preparados, não só para viver estes novos tempos, mas sim para os fazer acontecer, para criar, para guiar. Entraremos brevemente no tempo do NERD-CHIC.

VIP Coder

Outro exemplo mais interessante quanto a mim vem do ex-Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama: o primeiro Presidente a programar(!). Bom talvez seja exagero (ser o primeiro e “programar”). Em 2014, patrocinando com a sua presença um evento da Code.org, uma organização que promove o ensino da ciência de computadores, como em tantos outros momentos, Obama inspirou os mais novos e mais velhos, sendo que a sua preocupação para esta matéria mostra bem a sua importância económica e social para as nações. (Artigo da Wired.com)

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