Mulheres nos negócios (e em todo o lado, já agora)

Mystery in Space

Mystery in Space #8 Banda desenhada de John Broome, Bob Oksner e Bernard Sach, publicada em 1952. Toda ela coerente com os assuntos em voga na época, mas com o detalhe de fazer a inversão de género dos personagens.

Acusei uma amiga e parceira de negócios, há uns dias atrás, de sexista.

A minha amiga é dirigente de uma associação de empresas e por entre as suas (muitas) responsabilidades tem ainda tempo para se assumir como uma grande entusiasta no apoio às mulheres empresárias (ou empreendedoras, como se diz hoje em dia). Regularmente organiza eventos nos quais reúne público exclusivamente feminino, para formar, ouvir ou partilhar experiências. Na minha “acusação” disse-lhe que estas iniciativas eram o equivalente aos “clubes” de outros tempos (?) onde homens fumavam charutos e falavam disto e daquilo e no meio da conversa descontraída, faziam os seus contactos e os seus negócios. Mas, neste caso seriam invertidos os papeis reservados aos géneros. Estão a ver a imagem, certo?

A minha acusação ERA A BRINCAR! Mas ainda assim, a brincadeira fez-me pensar…

Sempre desvalorizei a chamada discriminação positiva. Para mim, descriminação positiva é discriminação, errada portanto, no sentido em que separa e segrega dois ou mais sub conjuntos de uma população. Sendo eu um adepto da meritocracia e não tendo nenhum tipo de preconceito (no sentido do conceito ou ideia formada previamente) em relação ao ser humano e respectivos sub-conjuntos, espero que homens, mulheres, novos, velhos, crentes, ateus, homo e heterossexuais tenham as mesmas oportunidades e responsabilidades na nossa sociedade. Pois…

A nossa sociedade não tende naturalmente para o equilíbrio.

Pelo contrário, existem desequilíbrios que, por pequenos que sejam, cultiva-se a si próprios, aumentando o seu alcance e dimensão. Este é um desses casos: as mulheres em cargos de gestão superior nas empresas, ou mais genericamente, as mulheres nos negócios. Por outras palavras, se existe uma predominância masculina na gestão de topo e essa gestão tende a reconhecer indivíduos do mesmo género, por condicionalismos sociais ou culturais, então cada vez mais a situação se desequilibra.

E os números não deixam dúvidas (dados recolhidos em várias fontes, principalmente junto de artigos em revistas de economia e gestão, e referentes a Portugal nos anos 2015 e 2016):

  • 42% dos empregos estão ocupados por mulheres
  • 30% dos cargos de liderança nas empresas estão entregues a mulheres.
  • 25% dos cargos de direcção executiva estão entregues a mulheres.

De forma simplista, seria de esperar que, se existem cerca de 52.6% de mulheres na população portuguesa, então teríamos 52.6% de mulheres empregadas, 52.6% dos cargos de liderança entregues a mulheres e 52.6% de cargos de direcção executiva entregues a mulheres. Para mim, que aposto na beleza dos números, assim deveria ser. Mas não é.

E que os exemplos em contrário, que vão sendo cada vez mais, não nos afastem da realidade. Felizmente pertenço a uma geração e a uma área de actividade em muito responsável pela mudança no sentido da equidade entre géneros. Durante a minha vida profissional tive o prazer de trabalhar com homens e mulheres, uns melhores outros piores e, através de uma análise empírica, não consigo hoje dizer que as mulheres fazem melhor isto ou aquilo ou que os homens são mais isto ou aquilo. Muitos casos existem, em que essa equidade é um facto. Mas muitos outros existem que nos mostram o contrário.

Olhando para a actualidade, parece-me existir aqui um problema de “ponto de partida”. Como em tempos recentes, por variados condicionalismos de ordem social, cultural e até religiosa, as mulheres foram relegadas para posições sociais menos elevadas em termos de exercício de poder (pelo menos declarado), é natural que o caminho a percorrer em relação ao equilíbrio ainda não tenha terminado.

Não se muda este cenário de repente, seja por vontades políticas ou decretos ou manifestações ou histerismos progressistas. É obrigatoriamente gradual, faz parte de uma qualquer reorganização profunda de um ecossistema. Por isso, neste cenário, e ao contrário do que já foi a minha opinião, considero a discriminação positiva… positiva! Como noutros aspectos da organização da nossa sociedade, tentemos racional e intencionalmente repor o equilíbrio.

Deveremos conseguir acelerar a distribuição mais equilibrada de todas as funções na nossa sociedade, entre homens e mulheres. É uma questão de elementar justiça em relação aos indivíduos de ambos os sexos (o mérito e aptidão de cada um é o que deve contar). A existência de formação, apoios financeiros, associações femininas e, no limite (para mim) a imposição de cotas M/F em certos contextos parecem-me correctos.

Cartoon de Emilio Moralez Ruiz – https://www.pinterest.com/pin/128493395595277218/

O perigo da inércia

Um outro aspecto que pontualmente aparece referido em estudos, conversas de café e artigos de revistas é o das vantagens das mulheres em relação aos homens para desempenhar cargos de gestão. A base científica destas “conclusões” é, no mínimo, duvidosa, e no limite (opinião pessoal, assumo) sexismo “invertido”.É a inércia da luta, por certo, que leva alguns de nós (mulheres e homens) a procurar características no sexo feminino que, supostamente, as tornariam mais aptas para a liderança. Uma das mais ridículas listas destas “superiores características” das mulheres que encontrei:

As mulheres são ouvintes atentas; As mulheres são mais sociáveis; As mulheres estão mais actualizadas; As mulheres conseguem realizar mais tarefas em simultâneo; As mulheres são mais eficazes em grupos de trabalho.

Não sendo especialista no estudo da diferença entre géneros, não me parece este conjunto de “superioridades femininas” verosímil. São, quando muito, fruto das mesma condições culturais e sociais que em primeiro lugar afastaram durante séculos as mulheres das funções de gestão de topo. De novo, pela minha experiência, já vi muitas mulheres a só “ouvir metade” do que o colega diz, com “mau feitio”, agarradas a conceitos ultrapassados, sem capacidade de tratar várias tarefas em simultâneo e completamente incompetentes a gerir conflitos dentro de grupos de trabalho. Não que as mulheres SEJAM assim ou SEJAM o oposto. Algumas são. Outras são o oposto. Pela minha experiência (de novo, minha), mulheres e homens partilham pontualmente essas incompetências. Felizmente, partilham, também essas mesmas valências.

Dizer que gostaria de viver num mundo onde as mulheres tivessem as mesmas oportunidades que os homens, é um lugar comum e felizmente integrei equipas e empresas lideradas por mulheres em número suficiente para o poder afirmar. No meu micro-mundo, existe equidade.

Mas o que eu gostava mesmo era viver num mundo onde não fosse uma surpresa ver uma mulher em cargos de gestão, chefia, liderança. Um mundo onde ninguém pensasse “Olha, é mulher mas conseguiu chegar ali…”. Isso é que eu gostava…

By | March 2nd, 2017|Política e Cidadania|0 Comments

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