Um Reino (Des)Unido

Theresa May

Dizia um amigo meu no dia antes das últimas eleições no Reino Unido: Theresa May or… May Not. Passadas umas horas, verificou-se que Did mas… Did not! Confuso, não?

Os conservadores ganharam as eleições. Mas foi uma vitória de Pirro. E ao contrário do Rei Grego, que apesar de ter pago um preço demasiado elevado para ganhar a refrega contra os Romanos, tal foi imposto pela obrigação de ir para a guerra, de forma a travar os intentos do jovem império, Theresa May não precisava de ter ido a esta luta. Bem sei que falar assim depois de terminado o  “jogo” é fácil, mas os súbditos de Sua Majestade que estão nas cúpulas do reino ultimamente não sabem escolher as suas batalhas. Tem de ler mais Sun Tzu e Maquiavel, por certo.

Cameron tinha uma perspectiva de vitória mais ou menos sólida, mas para ir buscar os votos que estavam a ser “roubados” pelo UKIP, prometeu um referendo à permanência na UE. O risco era controlado, calava o correligionário conservador e despenteado Boris Johnson e ainda o lunático do Nigel Farage.

Correu mal.

Ganhou as eleições com maioria absoluta, ficando por esclarecer se os votos dos mais nacionalistas foram determinantes, e de seguida cumpriu a promessa, fez o referendo, fez campanha pelo “Stay” e perdeu. Ganhou o “Leave”. Brexit, portanto.

Cameron demite-se, Theresa May “herdou” o lugar de chefe dos conservadores (todos os restantes candidatos à liderança dos conservadores desistiram antes da eleição final), e o novo governo continuou com maioria absoluta.

Talvez por esta história até aqui não ter dado a Theresa May uma vitória em luta directa, talvez por o próprio referendo não ter tido um resultado avassalador, seja pelo que for, resolveu num erro táctico sem precedentes, provocar eleições antecipadas de forma a (disse ela) clarificar a situação política e obter senão uma maior legitimidade, pelo menos uma união clara dos Britânicos em torno do seu governo durante as difíceis negociações do Brexit.

Correu mal outra vez.

Os conservadores perderam a maioria absoluta e num sprint durante a noite após a consulta, negociou um rascunho de acordo de incidência parlamentar (agora usa-se muito, pelos vistos) com um partido unionista da Irlanda do Norte, o DUP. E apesar do acordo não estar ainda totalmente fechado, foi o suficiente para ir à audiência com Isabel II e propor-se a fazer governo.

Em tal cenário existem várias fragilidades, quer para May e para os Conservadores, quer para o Reino Unido no cenário de negociação do Brexit, quer para a UE. E algumas dessas fragilidades são transversais a vários jogadores, internos e externos.

Os unionistas da Irlanda do Norte têm como principal desígnio a manutenção de uma relação privilegiada com os vizinhos e ex conterrâneos da República da Irlanda. Se hoje em dia não temos um IRA activo como na década de 70 e 80 do século passado, é porque perante a sua ineficácia, foi perdendo terreno na população e os intentos separatistas e unionistas passaram a ser exercidos de forma mais política e menos “à lei da bomba”. Os novos parceiros dos conservadores defendem, entre muitas outras coisas, a livre circulação entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, por exemplo. Cenário fora de questão, pelo menos para já, após a concretização do Brexit. A UE não permitirá tal benesse sem contrapartidas que não estão ao alcance do Reino Unido cumprir.

Claro que, como se viu em Portugal com o governo PS apoiado no parlamento pelo PCP e BE, os pequenos partidos tendem a ceder em questões fundamentais e não só nas acessórias, de forma a manter qualquer tipo de influência no governo eleito. A ver vamos quanto os unionistas estão dispostos a abdicar.

Seja como for, Theresa May e os Conservadores dependem agora de um pequeno partido, de incidência regional e sem uma visão do todo. É como que uma espécie de queijo limiano britânico!

Este governo frágil também não é bom para a UE, por estranho que pareça. É sabido que os melhores negócios são aqueles nos quais as duas partes ficam satisfeitas. E se a situação do Reino Unido, do meu ponto de vista, já não era famosa em termos de custos / benefícios pós Brexit, a perda aparente de força negocial do governo, decorrente de não obter a aprovação da maioria dos eleitores complica ainda mais o cenário.

Não nos podemos esquecer que a principal razão que levou à fundação da agora UE foi o princípio de que, se dependermos economicamente uns dos outros, haverá menos possibilidades de conflitos armados entre os povos e nações europeias. Este “arranjo” resultou ao longo de décadas, apesar de todas as fragilidades da União. Alguns pessimistas detractores da UE não se cansam de dizer que esta não é “natural”, que historicamente nunca nos demos bem (os europeus), que nunca haverá uma total e real integração europeia… Apesar de eu partilhar parte dessas constatações, o certo é que tendemos a esquecer os resultados positivos. E não há uma guerra generalizada na Europa desde 1945. Os conflitos regionais que aconteceram foram sanados com a intervenção da NATO e da ONU, pouco da UE. Sim, é uma preocupação a falta de capacidade da União para se defender. Mas, de uma forma ou de outra, até agora, resultou! (acerca da defesa militar da União Europeia)

Agora imaginemos que o Reino Unido concretiza o Brexit de uma forma fortemente lesiva dos seus interesses (um governo fraco do lado de lá assim o ditará). Basta ler os livros de história para entender que se abrirão as portas do poder aos nacionalistas,  isolacionistas e outros extremistas na pátria de sua Majestade. Por outras palavras, se o pós-Brexit não for minimamente aceitável para os Britânicos, esperam-nos tempos muito difíceis e até perigosos na relação com o Reino Unido.

Apesar dos dois grandes fenómenos internacionais (Brexit e Trump) terem tido um efeito agregador da União Europeia (complementado por outro “fenómeno” chamado Macron, em França), efeito esse que não era esperado por nenhum analista, bem pelo contrário, o cenário que se começa a antever poderá ser estranho a esta nossa geração: Estados Unidos e Reino Unido isolados económica e politicamente do resto do mundo. A UE a aprofundar laços comerciais com a China e a lançar iniciativas de defesa militar do território europeu. A falência da NATO. A instabilidade provocada pelos pequenos conflitos regionais sem um travão à altura em sede da ONU, NATO ou Estados Unidos.

Evitar tudo isto está agora nas mãos da União Europeia. Ceder sem o ter de fazer, pontos fundamentais na negociação do Brexit será um caminho. Um Reino Unido forte e ligado à UE seja como for, é essencial à paz na Europa e no Mundo. Digo eu…

By | June 14th, 2017|Política e Cidadania|0 Comments

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